Máquinas Orgânicas?

Máquinas Orgânicas?

O estilo de vida das grandes cidades e conglomerados urbanos, de certa perspectiva, demonstra-se divertida e perfeita, com bares, boates e restaurantes “a cada esquina”. No entanto, por um ponto de vista mais realista, a vida mostra-se estressante e monótona para a maioria das pessoas, arremessando-as impiedosamente ao sono e ao tédio. Diante disso, há um belo contraste do que é real para o que aparenta ser, e isso é consequência de comportamentos falsos e convenientes das pessoas, involuntariamente, transformando-as em máquinas programadas a viverem a insanidade de uma rotina competitiva, que rouba a delícia que é sentir-se vivo.

            Machado de Assis dividia o Brasil em dois países: o país real e bom, pois revela os melhores instintos, e o país oficial, caricato e burlesco. Diante disso, forçando um pouco a ideia do autor, é possível afirmar que o país oficial tira das pessoas seus próprios instintos e desejos, para dar lugar a atores e atrizes atuando em uma grande comédia chamada “Vida”, seguindo um roteiro que, nem sempre é o que se almeja, mas que não é questionado, pois agradar os diretores pode ser melhor do que agradar a si mesmo, se tornando uma piada para a plateia, esperando aplausos falsos e acreditando que tudo valeu a pena no final. Porém, essa piada não tem a menor graça.

            Em contrapartida, tem-se o país real, bom, porque nele as vontades pessoais são levadas a sério. Sem atores e nem atrizes, mas pessoas, com sentimentos próprios. Sem roteiro, mas uma vida feita de escolhas. Sem plateia, mas com sorrisos verdadeiros de quem sabe o que sente, e sabe que sente, e isso basta. O país real é bom, pois os bastidores pertencem a ele, em que as pessoas são o que são, não por ser apropriado, mas por ser sincero. Entretanto, o país oficial, infelizmente, está sempre no palco principal, ganhando todo o destaque, fingindo ser aquilo que o país real é: verdadeiro.

            Além disso, cerca de 800 mil pessoas acabam com suas vidas todos os anos no mundo, equivalente a uma morte a cada 40 segundos. À vista disso, é perceptível que a falta de identidade se tornou tão grande, que até mesmo as vidas “perderam” seu valor. Nem todos suportam o peso de serem quem não são. Há quem diga que isso é frescura, outros que é falta de Deus. Mas o fato é que, em muitas situações, essas pessoas estão apenas aprisionadas em seus alter egos e, de forma danosa, buscam a liberdade em prazeres baratos, estimulantes e anestésicos, ou na própria morte, como foi citado. Frescura ou falta de Deus, o que importa é que é real, e deve ser tratado como tal.

            Urge, portanto, uma maior dedicação ao país real, pois mesmo que a vida seja dura nele, ainda é verdadeira, diferentemente do país oficial, em que as coisas são ilusórias, superficiais e temporárias. Não é preciso seguir um padrão para ter uma boa vida, basta viver bem, consigo e com as pessoas ao seu redor.

O amor, o respeito e a compaixão, são demonstrações raras atualmente, mas não precisa ser assim. Não é preciso ser uma máquina orgânica, aprisionada em sua própria rotina. Ser apenas orgânico, já é um grande passo, você não acha? “Ou mudamos o mundo…ou deixamos ele nos mudar…”

 

Autor: Pedro Henrique Dias Batista
Graduando em Sistemas de Informação na Faculdade Delta e Desenvolvedor de jogos